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A Pobr€za das Naçõ€s

A Pobr€za das Naçõ€s

Jogo de Soma Zero

O atual cenário económico mundial é caraterizado por um trágico contraste entre países avançados e países em desenvolvimento. E este fosso tem aumentado: em 2014, o PIB per capita dos EUA atingiu os 50.417,57 USD, enquanto o do Zimbabwe estima-se em menos 2% deste valor. Estes números refletem uma gigantesca diferença de padrões de vida. Existem várias teorias de desenvolvimento económico para explicar essa disparidade. Vou debruçar-me em particular a uma: A teoria da Revolução da Dependência Internacional (em inglês, The Internacional Dependence Revolution). Na sua essência esta teoria defende que o desenvolvimento económico dos países avançados baseia-se no subdesenvolvimento dos países pobres. Em outras palavras, os países avançados são ricos porque exploram os países pobres. Uma vertente desta teoria é o modelo da dependência neocolonial, segundo a qual os antigos colonos continuam a explorar as ex-colónias. Apesar de radical, infelizmente há evidências que suportam esta teoria. Logo, é fundamental uma nova ordem económica mundial que promova uma maior igualdade entre os países. É verdade que os países subdesenvolvidos também devem fazer o trabalho de casa, a começar pelos direitos humanos, não adianta só apontar o dedo ao vizinho (apesar deste ter alguma culpa). O crescimento económico mundial não tem que ser um jogo de soma zero (uns ganham e outros perdem), todos podem beneficiar, é uma questão de mais vontade política e menos ganância.

Uma abordagem Neoclássica

PORTO - O livro “Pilhagem de África”, escrito pelo jornalista do Financial Times, Tom Burgis, é daqueles que poderiam dar em sugestão literária mas, como gosto de ir um pouco mais além, aproveito para fazer a ponte com a abordagem Neoclássica do crescimento económico, com a qual me identifico.

 

Começando por Tom Burgis. Este jornalista, profundo conhecedor do continente africano, fez uma reportagem em vários países de África, conversou com alguns líderes e, deu-nos a noção do que é viver no continente mais pobre do mundo, mas que detém um terço das reservas mundiais. O dinheiro existe, de facto, naquele continente, mas é mal distribuído, estando na posse de uma pequena parte da população que controla os recursos, tem influência política e investe no estrangeiro via offshores. “Quanto mais um país depende dos seus recursos naturais, mais a classe política se alimenta desses recursos e mais desvia o dinheiro que permitiria diversificar a economia, usando-o para proveito próprio ou para perpetuar o estado das coisas”.

 

Nestes países pobres africanos, o trabalho qualificado é mais escasso, portanto, o seu retorno deveria ser mais elevado. No entanto, esta remuneração é inferior ao retorno do trabalho qualificado dos países ricos, que é mais abundante. Os Neoclássicos explicam este fenómeno através do facto de os países ricos terem níveis de produtividade relativa do trabalho elevados, tão elevados que compensam a abundância relativa nestes mesmos países ricos. O mesmo acontece com o fator capital: por ser mais escasso nos países pobres, seria de supor que a produtividade deste fator fosse superior à produtividade nos países ricos, onde o capital é abundante (tal como nos diz a lei dos rendimentos marginais decrescentes). Tal não acontece, por vários motivos, ou por se investir muito mais nos países ricos, ou porque os países pobres têm associado um prémio de risco que os obriga a pagar mais quando pretendem obter financiamento, por exemplo.

 

Robert Solow acrescenta ainda contribuições importantes para esta reflexão. Diz este autor Neoclássico que aumentos da taxa de crescimento da população tornam as economias mais pobres em nível (e a pressão demográfica em África é assustadora), e que aumentos da taxa de poupança (ou de investimento) tornam o país mais rico também em nível (unidades de fator por trabalhador). As extensões a esta contribuição elencam a importância de outro fator de crescimento que é escasso em países em desenvolvimento: o conhecimento tecnológico, influenciado pelos níveis de escolaridade, processos de inovação, “learning by doing” ou processos de imitação.

 

Assim se pode explicar, de uma forma teórica e modesta, o que falta aos países africanos para que consigam convergir para os níveis de riqueza dos países desenvolvidos. Burgis está pessimista e eu também. Pelo menos enquanto durar o ciclo vicioso que controla recursos e que enriquece à custa disso.

Sugestão literária: Acabem com esta Crise Já!

Acabem com esta Crise Já!, de Paul Krugman

 

 

"Paul Krugman faz uma análise de grande amplitude sobre a maior crise da economia mundial desde a Grande Depressão de 1929, examinando aspetos determinantes e apontando caminhos para contrariar os seus efeitos. Para ele é claro que a ênfase deve ser colocada no retorno rápido aos níveis normais de produção, o que exige pôr em prática aquilo que se aprendeu com crises passadas. Especialmente interessantes são capítulos relacionados com a moeda, em geral, e o euro e a crise da dívida europeia, em particular. Acabem com esta Crise Já! é uma obra fundamentada, de leitura acessível para um público vasto e que não deixará de interessar também os leitores especializados." (Bertrand)

 

[Com o Grexit mais próximo que nunca e com todos os problemas que daí têm derivado, o que me apetece dizer é: Acabem com esta Crise, Já!]

 

 

 

Troca de Campo

Tal como em muitos outros desportos, também neste duelo os elementos trocam de campo ao intervalo.

De um lado os credores, capitaneados pela  Alemanha irão atacar a baliza nortenha, e por outro os devedores liderados pela irreverente Grécia terão como opositor um elemento do Sul de Europa.

Não se engane. Não me refiro a qualquer tipo de partida futebolística, mas sim à eleição do presidente do Eurogrupo (adiada para o próximo mês devido ao momento crucial nas negociações com a Grécia).

Desta vez, os países do sul europeu apoiarão o Ministro das Finanças Holandês e actual presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, um Economista esquerdista licenciado em Economia Agrícola (e talvez não só*) que tem tido um papel proeminente na procura de consensos e a promover a comunicação entre as partes. Por outro lado, os credores defenderão um ministro dos PIIGS, o Ministro Espanhol Luis de Guindos. Um Economista e conservador membro do Partido Popular espanhol, forte crente nas Políticas de Austeridade e com um percurso profissional provavelmente não muito apelativo (Ex-advisor da Lehman Brothers para a Europa!!!).

Resta-nos conhecer até quando durará esta partida, e quantas mais partes de jogo ainda terá.

 

*-Consta (ou constou) na sua biografia oficial um Mestrado na University College Cork, o qual a Universidade já veio desmentir. Pelos vistos, as dúvidas sobre os percursos académicos dos políticos observam-se além fronteiras.

O que os privados fazem

COIMBRA - Na semana passada li um artigo de opinião de Luís Cabral, conceituado economista português e professor na Universidade de Nova Iorque, que descrevia o modo como o Central Park era gerido e financiado. Escrevia este economista que o conhecido parque praticamente não recebe qualquer apoio do Estado, e que não é por isso que é um parque sujo e poluído, mas sim um sítio onde se praticam atividades lúdicas e se assiste a concertos e a espectáculos de teatro. Basicamente, o parque é financiado por contribuições privadas e, segundo ele, a criação de uma fundação própria para a gestão do Central Park permite que este seja um dos locais mais admirados de Nova Iorque. O que seria então do parque se fosse financiado e gerido pelo Estado?

 

Ocorreu-me contar este episódio para associar com a recente privatização da TAP. A transportadora aérea estatal foi avaliada recentemente pela PwC e pela Deloitte em valores negativos de 274 milhões de euros e 512 milhões de euros, respectivamente, tem uma dívida de 1062 milhões de euros (dos quais 600 milhões são dívidas a bancos) e precisa urgentemente de renovar a sua frota de aviões.

 

É de todo aceitável, portanto, que seja privatizada. Se a empresa, que pertence ao Estado, dá prejuízo mas suscita o interesse a privados, porque não privatizá-la? Vão aumentar os preços? Pois que aumentem, porque a concorrência que a TAP enfrenta é a da Lufthansa, British Airways ou Air France que praticam preços mais altos. Mas oferecem melhor serviço? A privatização vai permitir uma entrada de capitais de, pelo menos, 338 milhões de euros, que fará aumentar a qualidade e o número de rotas a servir pela TAP.

 

E não será que as low costs vão passar a ter maiores vantagens de preços? Pois que tenham, porque é aí que está a principal vantagem desta privatização: David Neeleman, novo dono da TAP e conhecedor do mercado americano, permitirá que a TAP passe a explorar este continente, renovada e com os capitais reforçados, pronta a conquistar novas redes e clientes. O mercado europeu é, agora, em parte, dominado pelas low costs e serão estas, a par das companhias asiáticas, a controlar a zona Este do globo, o que exige uma nova estratégia para a companhia portuguesa (se é que alguma vez tenha tido uma estratégia). Privatizar a TAP? Claro que sim, por tudo isto e porque não deve ser pública.

Investir nas Pessoas

Depois da “ressaca” da crise financeira, a economia mundial vai dando sinais de recuperação. Apesar de pairar ainda algumas “dores de cabeça”, principalmente na zona Euro (Grexit?). Para uma recuperação económica sustentada são necessárias políticas económicas que promovam sobretudo o emprego, investimento e o progresso tecnológico (inovação). Um dos legados da crise foi o aumento dos níveis de desigualdade económica em muitos países. É um fato comprovado que o crescimento económico deriva dos aumentos de produtividade. E o principal driver da produtividade é o progresso tecnológico. Este por sua vez resulta dos investimentos no capital humano (educação, saúde e bem-estar, etc). Deste modo, o investimento nas pessoas torna o crescimento económico mais sustentado e inclusivo. Atualmente, é possível verificar que os países com maiores stocks de capital humano são os mais desenvolvidos. Não há segredos! Para uma recuperação económica efetiva é preciso remover os obstáculos políticos, sociais e institucionais que promovem a desigualdade económica. Investir nas pessoas é dar um rosto humano ao capitalismo selvagem.

Dilema dos Prisioneiros: A Grécia e as Instituições

O encontro do Eurogrupo decorreu hoje sendo que, ao que parece, o consenso entre os gregos e os parceiros continua a não existir e este é um enorme problema para a Zona Euro. Em minha opinião, as instituições credoras parecem não querer cooperar com os gregos, sendo que estes últimos se encontram a tentar honrar o programa de governo com o qual foram eleitos, não estando a sucumbir levianamente às exigências dos credores. Para melhor entendimento desta perspectiva, parece-me importante expor algumas das medidas apresentadas pelos gregos no passado dia 15, medidas estas que foram declinadas rapidamente.

 

- Uma taxa especial de 12% sobre os lucros das empresas acima de um milhão de euros;

- Aumento da taxa de IRC de 26% para 29%;

- Aumento da contribuição de solidariedade;

- Cortes de 200 milhões na despesa do setor da Defesa;

- Taxa sobre publicidade televisiva;

- Taxa sobre os lucros do jogo online; 

- Receita extra vinda de multas sobre veículos; 

- Reforma do IVA: taxa mínima passa de 6,5% para 6% com mudanças nas taxas aplicáveis a vários produtos. A 6% ficariam livros, medicamentos e teatro; a 15% os jornais, produtos alimentares básicos, energia, água e hotéis e restaurantes; a 23% outros produtos alimentares (marisco, comida pré-cozinhada, etc);

- Limite às pré-aposentações;

- Receita de combate ao contrabando de combustível;

- Auditorias a contas bancárias;

- Combate à fraude no IVA Licenças televisivas.

 

Este conjunto de medidas, assim como as estimativas da sua receita, constam do documento que foi divulgado pelo jornal Kathimerini. Creio que estas medidas são plausíveis e não havia necessidade, por parte dos credores, da sua rejeição, evidenciando, uma vez mais, que não estão dispostos a cooperar e que as medidas a aplicar terão que ser a seu desejo, prolongando assim a incerteza no seio da Zona Euro. Gostaria de destacar, como pontos positivos, a taxa especial de 12% sobre lucros supranormais e a aplicação de uma taxa aos lucros dos jogos online. De referir, também, que os produtos alimentares básicos ficariam sujeitos a 15% de IVA visto ter sido uma exigência dos credores.

Sendo Yanis Varoufakis economista especialista em Teoria dos Jogos, permitam-me afirmar que o jogo que está a ser disputado, entre os gregos e os credores, é do tipo Dilema dos Prisioneiros, jogo este que se caracteriza por o Equilíbro de Nash (equilíbrio do jogo) não ser o Óptimo de Pareto (sendo este o equilíbrio mais benéfico para ambos os jogadores). Neste caso, os gregos (que ao longo dos últimos meses fizeram algumas cedências) mas sobretudo os credores têm optado por não cooperar, porém, a cooperação de ambos traria mais benefícios para os gregos, para os credores e para o resto da Zona Euro que começa a demonstrar sinais de temor a um Grexit.

 

 

Extra: Grexit

Não se perspectiva o desfecho no braço de ferro entre a Grécia e  as "Instituições", e as consequências deste impasse já começaram a acentuar-se. 

Esta intervenção "extra" visa apenas alertar que a crescente probabilidade de ocorrer um Grexit, já levou ao inicio da corrida aos bancos gregos, onde nesta segunda-feira foram já levantados 400 milhões de euros (valor superior ao dobro dos normalmente verificados). Com isto, os depositantes procuram proteger-se de uma eventual transição para o Dracma, usando o Euro como moeda reserva.

Apesar dos benefícios de que Portugal poderá beneficiar com o "finca-pé" grego, são inevitáveis os riscos de contágio especulativo caso o tão aguardado acordo não se concretize. (yields da dívida portuguesa já vão em 3,17% - valor máximo do ano).- Hiperligação Expresso.


Saldo Costa: Conflito, Leviandade e Resolução

Muita tinta foi gasta na imprensa ao longo das ultimas semanas, com um forte debate sobre a re-nomeação de Carlos Costa (CC) como Governador do Banco de Portugal.

Após a integração na União Monetária e perda da soberania relativa à política monetária, as funções pela qual o governador terá de se responsabilizar não passaram muito além da actividade reguladora e da supervisão bancária, pelo que os cinco anos de governação de CC poderão ser caracterizados em três dimensões.

Conflito -  Com uma cada vez maior inovação e integração financeira, seria de esperar uma maior cooperação relativa à regulação do sector financeiro. Mas ao contrário do esperado, as duas principais entidades reguladoras nacionais, o BdP e CMVM mantiveram-se ao longo dos últimos anos de costas voltadas numa "guerra de egos", empatando as suas actividades ao privarem-se da partilha de informações relevantes para ambas as entidades.

Leviandade - Carlos Costa, no desenrrolar do que viria a ser o Caso BES, vai acumulando responsabilidades relativas ao seu comportamento permissivo, ao não assumir uma posição mais drástica e categórica, retirando a idoneidade a Ricardo Salgado quando começou a obter dados sobre os actos praticados pelo grupo. Em resposta a este comportamento, desculpou-se alegando falta de poderes para agir mais proactivamente.

Resolução - Não sendo uma prática pioneira, aponto a solução da divisão do Banco Espirito Santo como o ponto alto (mas de sua responsabilidade) dos cinco anos decorridos. Não se constatando consequências ecónomicas muito relevantes, o caso foi (até agora) devidamente controlado. Porém (há sempre um porém), tarda a esclarecer qual a posição assumida perante os clientes lesados pela resolução.

(Note-se a diferença entre dois tipos de lesados, os que aplicaram os seus fundos em aplicações e investimentos em troca de um prémio de risco (tal risco legitimiza a perda); e os depositantes enganados, que compraram papel comercial na convicção de exercerem simples depósitos. A meu ver, apenas estes deverão ser reembolsados.)

 

Com a citada conflituosa regulação e a leviana supervisão, será de dificil compreensão que o governador seja recompensado após falhar nas principais funções que lhe competiam, e para mais, tendo sido este nomeado pela primeira vez em 2010, a pedido do então Ministro das Finanças do Governo Socialista, Teixeira dos Santos.

 

Economia Azul

PORTO – Finalmente! Na semana passada ocorreu, em Lisboa, a “Semana Azul”, dedicada em exclusivo ao debate e discussão de assuntos relacionados com o mar. Aproveitando o contexto em que estavam inseridos os eventos da “Volvo Ocean Race” e da “Conferência dos Oceanos”, organizada pela revista “The Economist”, o Ministério da Agricultura, do Mar e das Pescas juntou a estes eventos um Fórum Empresarial e uma Conferência Ministerial, em que estiveram presentes em debate 70 ministros de todo o mundo, ligados aos assuntos marítimos. Entre empresas, universidades, institutos, laboratórios e fundações, o assunto que dominou a semana foi o mesmo: o mar.

 

Ao que parece, o objetivo do actual Governo passa pelo aumento do peso do setor marítimo em Portugal. Atualmente, a economia do mar perfaz 3% do PIB e o objetivo passa por chegar aos 4,5% até 2020. O potencial deste setor é imenso. Segundo um relatório do Banco de Portugal, divulgado no mês passado, o setor do mar é constituído por 2500 empresas, que representam apenas 0,7% das empresas no nosso país e apenas 1,1% do volume total de negócios em Portugal. Estes valores são medíocres para um país que faz fronteira com o mar.

 

É necessário garantir um maior controlo das pescas, por dois motivos: primeiro porque têm um peso excessivo no total de empresas ligadas ao mar, o que faz com que haja muita competição e pouca eficiência; depois, porque é necessário reduzir a actividade piscatória para que possamos ter um stock ótimo de peixes, isto é, para garantir a regeneração do pescado e evitar a sobre-exploração. É necessário também reforçar o apoio a outros setores marítimos. Criar linhas de crédito para empresas ligadas à construção e reparação naval ou para empresas ligadas aos transportes marítimos seria uma boa solução.

 

Vejo também com bons olhos a aposta na criação de linhas ferroviárias que ligam o porto de Sines à fronteira com Espanha, contribuindo para que Portugal se torne um autêntico “porto da Europa”. Acredito ainda que deveria ser feita uma maior aposta e dado um maior apoio ao comércio ligado ao mar, tanto na área da restauração como na área do Surf e outras atividades desportivas. Espero e desejo que não se trate apenas de uma moda, no entanto, é de saudar esta iniciativa governamental que deu origem à “Blue Week”, dando um pontapé de saída no reconhecimento do papel que Portugal tem ao nível internacional no que toca à “governança dos oceanos”. Finalmente!

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