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A Pobr€za das Naçõ€s

A Pobr€za das Naçõ€s

De Chicago à Islândia

“Who should have the authority to create money?”. Esta é uma questão constantemente recitada nos debates relativos à oferta de moeda e ao poder legítimo, ou não, de que os bancos gozam no sistema financeiro actual.

Perante a recente crise financeira global, muito se tem vindo a debater e questionar sobre as práticas bancárias que originaram o colapso do Subprime (créditos hipotecários a clientes com elevado risco de incumprimento). De forma a evitar a excessiva exposição ao risco, o descontrolo da oferta de moeda e a aplicação de dinheiros alheios, voltam a ser cada vez mais recorrentes as referências ao Full Reserve Banking. Contúdo, esta alternativa não é recente, sendo um tema de debate com história na literatura, tendo sido proposto inicialmente no aclamado Plano de Chicago, no período pós-grande depressão (crash de 1929), onde tal como a recente crise, foi originada ( pelo menos em parte) pelas consequências resultantes da desregulação financeira.

          

  Full banking reserve consiste na obrigatoriedade de os bancos deterém na totalidade as suas reservas bancárias, ou seja, o dinheiro proveniente de depósitos à ordem não poderá ser aplicado ou emprestado pelos bancos, evitando que estes detenham poder para criar dinheiro. Contudo, tal prática não seria aplicada para os depósitos a prazo, pelo que somando o dinheiro aplicado pelos investidores e pelas taxas cobradas aos clientes, os bancos poderão continuar a conceder créditos.

Com este modelo prever-se-ia um  maior controlo da quantidade de moeda existente na economia pelo Banco Central através da Base Monetária (quantidade de notas e moedas em circulação, mais as reservas obrigatórias dos bancos), por oposição ao actual modelo fraccionado, onde os bancos apenas têm em reserva os montantes mínimos definidos pelo Banco Central, podendo emprestar e aplicar o restante montante onde entender.

Desta forma, a actividade bancária aparecerá dividida em serviços separados, permitindo a um depositante avesso ao risco salvaguardar as suas poupanças, e evitando que o Estado tenha que intervir como “Lender of Last Resort” (emprestador de última instância) para cobrir possíveis perdas dos depositantes.

 

O actual primeiro ministro islândes Sigurjónsson, F. (2015), defende que o elevado impacto da crise financeira internacional na Islândia se deveu ao sistema de reservas fraccionadas, e à consequente impotência do Banco da Islândia para controlar a oferta de moeda, onde as excessivas concessões de crédito efectuadas pelos bancos amplificaram o ciclo económico, criaram uma inflação crónica e desvalorizaram constantemente a moeda doméstica (coroa islandesa – ISK). Justifica também a debilidade do sistema bancário perante a crise, com a excessiva exposição ao risco encorajada pela garantia de depósitos pela parte do estado.

Na sua proposta de reforma para o sector bancário, Sigurjónsson, F. afirma que o Banco Central deverá ter controlo sobre a oferta de moeda, deverá impor limites sobre os empréstimos para instituições financeiras e definir o nível das taxas de crescimento de empréstimos bancários. Tal é essencial para obter estabilidade dentro sector financeiro, porém não exequível sem a transição para o Full Reserve Banking.

Porém, em termos práticos, a aplicação de tal medida no sistema financeiro islandês, proporcionaria ao restante mundo uma oportunidade para retirar elações, dados para estudo e um feedback significativo das suas consequências práticas. Se um possível  desfecho for positivo, combinando com os “traumas” adquiridos nas duas restantes crises, Reykjavick poderá voltar a funcionar como laboratório de reformas económicas, sendo assim o “gatilho” para que a aplicação se propague pelo restante universo de países desenvolvidos.