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A Pobr€za das Naçõ€s

A Pobr€za das Naçõ€s

Zona Monetária Horrível

Na semana em que escrevo este artigo, a Zona Euro concluiu com a Grécia um acordo que salva os helénicos da bancarrota, depois de estes terem já pedido dois resgates financeiros, terem sofrido um haircut e terem, também, que pagar juros a rondar os 19% nos mercados de dívida.

 

Para que um país ou um conjunto de Estados federativos constituam uma Zona Monetária Ótima - construindo uma União Monetária - é necessário que se cumpram uma panóplia de critérios, entre os quais, a mobilidade do fator trabalho, a mobilidade de capitais e flexibilidade de salários e preços, uma união fiscal e orçamental e, ainda mais exigente, o facto de os países terem ciclos económicos similares.

 

Vem isto a propósito da situação em que se encontra o euro. Não podemos atribuir a culpa da actual situação grega ao atual ou aos dois/três governos anteriores a este. A verdade é que o euro padece de deficiências que vêm desde o momento da sua implementação, e que estão relacionados com o facto de a Eurolândia não representar uma Zona Monetária Ótima, mas sim uma Zona Monetária Horrível.

 

Nunca existiu na Zona Euro livre circulação de trabalhadores, no seu profundo conceito de livre, pois barreiras linguísticas e culturais existem, e por vezes são entrave à mobilidade, ao contrário do que acontece o seio dos EUA. A liberdade de circulação de capitais existe, de facto, mas permite a formação de paraísos fiscais como o Luxemburgo - nos quais Juncker, presidente da Comissão Europeia, já esteve envolvido – ou como a Holanda – onde boa parte das empresas do PSI-20 têm a sua sede – criando competição fiscal entre países. Há também diferenças significativas a nível estrutural, com os países do Norte a terem custos salariais mais elevados mas a produzirem bens com forte componente tecnológica e fáceis de exportar, e os do Sul com custos salariais mais baixos, mas pouco flexíveis, fabricando produtos menos processados e que foram altamente prejudicados com a entrada da China para a OMC (2001) e com o alargamento da UE aos países de Leste (2004).

 

Os ciclos económicos também não ocorrem de forma simétrica e similar na Zona Euro, uma vez que existem diferentes estruturas produtivas e choques externos que têm consequências diferentes nos países, e não são compensados por transferências dos menos para os mais afetados. Todas estas contrariedades juntas trazem mais consequências: um país com menos receitas terá que reduzir os apoios sociais, baixar os custos dos salários, ver o desemprego a aumentar, a emigração a subir, e os gastos em formação, investigação e desenvolvimento a cair, alimentando ainda mais as divergências na União Monetária.

 

P.S. - Mario Draghi abriu ontem a possibilidade de a dívida grega vir a ser reestruturada, uma solução que vai de encontro ao que tenho vindo a defender nas últimas duas semanas. O que falta mesmo é a abertura da Alemanha para que tal aconteça, mas isso já parece bem mais improvável.